segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Companheiro



(Imagem: Ingrid0804)

Escalar aquela montanha era enfrentar obstáculo acidentado. Escalada relativamente longa, em dias raramente azuis. A moça subia devagar, o olhar fixo no alto. Gotas de chuva molharam seus olhos. Porque houve chuva e houve frio.

Não ia só. Em algum momento surgiu-lhe um cão de ar aristocrático, olhos vigilantes e raros latidos. Nada de rabos abanando ou lambidas na cara de sua dona. Olhava à frente com olhos de cão.

Avançavam pela encosta, ansiosos por descobrir o outro lado. A esperança puxava a moça, a solidariedade empurrava o cão. Alegrias de outros tempos ecoavam risos lá embaixo, onde tudo começara. Para ouvi-los, bastava voltar-se um pouco. Até que surgisse o cão, apenas sonhos tomavam a atenção da moça. “Sonhos não latem e nem lambem o dedão do pé da gente”, ela refletiria mais tarde. E também não são fiéis.

Ofegante, ela seguia em frente. Às indagações de olhos e orelhas do cão, a moça respondia com afago contido e sem sorrisos. Solidário e cúmplice, o companheiro de escalada apontava o focinho úmido para o topo, apurando o faro.

Chovia, quando o cão silenciou. Depois de enxugar o rosto, a moça afinal pressentiu que, chegando lá em cima, finalmente abriria um sorriso.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Decibéis


(Imagem:TrapezoidArt)

- Alô, Marina, é a Carol falando... Tudo bem? Ligo pra lembrar nossa reunião hoje... Que reunião? Ué, do movimento de boicote ao Shopping que começou a cobrar pelo estacionamento... Já esqueceu?

- Ai, meu Deus, esse passarinho... Que passarinho? É um danado que apareceu aqui na rua, faz uns dois meses. Começa a cantar às cinco da manhã e só fecha o bico à noitinha... Sei lá, Marina, que passarinho é... O Pistum disse que falaram pra ele que é sabiá-laranjeira. Pra mim, tanto faz sabiá-laranjeira, mexeriqueira, abacateiro – o que for. É um chato.

- Mas voltando à reunião: vamos deflagrar o movimento com uma passeata em frente ao Shopping e precisamos combinar as ações. Somos cidadãs, Marina, e temos que defender nossos direitos. Minutinho, amiga...

- Pronto, fui pedir ao Pistum pra baixar um pouco o som. Quem é o Pistum? Ô, Marina, não estou reconhecendo Você... Pistum é o meu filho Ricardo, que Você está cansada de conhecer. Ah, Pistum é porque lembra a sonoridade da marcação dos funks que ele vive ouvindo a toda altura, lá naquele quarto. Sai de lá não, minha filha, só pra ir à escola, tomar banho e comer. Peço pra maneirar o som quando estou ao telefone e à noite, na hora da novela. Fora isso, fica lá se divertindo. Melhor que perambular pela rua fazendo coisa que não presta, né não?

- Ô passarinho chato, gente! Xô, passarinho, xô... Ué, Marina, Você está rindo? O quê? Galinha? Fala mais alto... Galinha? Xô é pra espantar galinha... – é isso? Eu quero é ficar livre desse passarinho, porque eu acabo ficando doida com esse piu-piu-piu que não para. Vontade de soltar um foguete bem na copa daquela árvore... O quê? Ah, da reunião?

- Pois é, a gente vai elaborar os cartazes, designar a comissão organizadora do abaixo-assinado... Você vai, né? O quê? Fala de novo, Marina, eu não ouvi... Toda a frota de ônibus urbano do município passa aqui em frente. E ainda tem o barulho dos lixeiros. Parece que eles estão desmanchando o caminhão a marretadas, no meio da rua. Ô gente sem noção, cruz credo!

(Silêncio)

- Alô, Marina? Desculpe, é que fui até a janela, jogar um cabo de vassoura na copa da árvore pra espantar aquele raio de passarinho. Mas não tive força suficiente e o pau caiu bem na cabeça do carteiro, que atravessava a rua na hora. Maior mico, menina, tive que me abaixar pra não ser vista. Mas quanto à reunião... Alô, Marina.... Marina, alô, V. ainda está aí? Alô!

- Desligou. Também, com essa titica de passarinho azucrinando a cabeça da gente, não há cidadania que resista.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ilunga, Arikapu e Abigobel


(Imagem: troutfactory)

Existe em Nova Delhi, sul da Índia, um monumento carregado de mistério. Trata-se do Pilar de Ferro que, embora datado do século IV, acredita-se ter mais de quatro mil anos. Erguido para homenagear o rei Chandra, a peça é uma haste com 40 centímetros de diâmetro e 7,5 metros de altura.

Objeto de análises contraditórias (há quem o perceba imerso em escuro silêncio quanto às origens e à técnica utilizada para sua produção), o monumento sobrevive à língua – traço mais forte e capaz de preservar parcela insubstituível do conhecimento humano. Foi o que aconteceu em relação a idiomas como o Panônio, o Ligúrio, o Piceno, o Dácio, o Umbro e o Falisco. Deste, por exemplo, restaram cerca de 200 inscrições breves, procedentes dos séculos IV e III a.C. Em uma delas – foied uino pipato cra carefo – seu autor nos legou a solidão expressa no significado de uma frase triste: hoje beberei vinho, amanhã nada terei.

Segundo estudiosos, não é o desaparecimento das línguas que provoca surpresa, mas a velocidade com que essas mortes acontecem. Para que passe de uma geração à outra, uma língua deve ser falada por, pelo menos, 100 mil nativos. Há especialistas, no entanto, que crêem na extinção, antes do ano 2100, de algo entre 3 mil e 6 mil línguas em todo o mundo.

Desastres naturais, guerras e razões políticas são fatores importantes no desaparecimento de um idioma. Há alguns anos a Unesco considerava em agonia, entre outros, o udihe, falado na Sibéria; o eyak, no Alasca, e o arikapu, falado em algum lugar na Floresta Amazônica, no Brasil. Naquela ocasião, uma centena de pessoas falava o udihe, meia dúzia o arikapu e apenas uma – Marie Smith, então com 83 anos de idade – seria capaz de se comunicar em eyak.

Mas se morrem as palavras, há quem lhes capte os derradeiros sopros de vida, embalsamando-lhes depois os corpos. Fábio José Dantas de Melo, pesquisador do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, é desses assistentes de momentos últimos. Bidíta despundinar vudari – que significa chave – é uma das 407 palavras do dialeto de ciganos Calon, que vivem no interior de Goiás, reunidas em registro por Fábio antes que desapareçam.

O mesmo fez, no Rio Grande do Norte, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez. Já deve ter sido editado o seu Dicionário Natalense das Palavras e Expressões Locais em Desuso, com vocábulos como anaia (pipa ou papagaio), banho de cuia (chapéu) e bunda canastra (salto mortal em água). Na contramão de Gonzaga, o também potiguar Kadmo Donato, bugueiro, já tem em segunda edição o registro de palavras nascentes por lá, como abigobel (leso, sem atenção), borréia (sem qualidade) e caningar (chatear).

Clarice Lispector referiu-se, certa vez, a um "espanar a poeira que se acumula sobre a linguagem". É também o que fazem os poetas, que acariciam palavras, tecendo com elas cantos capazes de levá-las através do tempo. Ainda que sejam palavras indevassáveis como as que compõem lista elaborada por uma empresa britânica, que relacionou as de mais difícil tradução, na opinião de mil tradutores profissionais.

É claro, saudade está na lista. Mas é apenas a sétima entre dez. A primeira e de tradução mais difícil é ilunga, da língua tshiluba, uma das quatro faladas na República do Congo. A palavra aplica-se a uma pessoa disposta a relevar qualquer maltrato a primeira vez, a tolerar a reincidência, mas a não suportar o tratamento pela terceira vez.

Apesar de tantas vezes maltratadas (haja vista o que se lê na internet, por onde chego a crer que o fim do idioma será antecipado), felizmente palavras não são ilungas. E, caso ocorra sua extinção plena, derrotada por bips, grunhidos e balbucios indecifráveis, ainda assim sobreviverá a que mais se emprega em todo o mundo: a palavra eu.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Sopro e a Luz


(Imagem: onkel_wart)

“Quando a exposição de Paris fechar, ninguém mais vai ouvir falar em luz elétrica.” (Erasmus Wilson, professor da Universidade de Oxford, 1879)

“Estou apto a suspeitar que todas as espécies humanas são naturalmente inferiores aos brancos.” (David Hume, filósofo empirista, 1766)

“Pelos meus cálculos, o mundo vai acabar em 1950.” (Henry Adams, historiador norte-americano, 1902).


Pobre sabedoria, a nossa!

Numa conversa entre os geniais pintores Edouard Manet e Claude Monet, ocorrida em 1864, o primeiro recomendou ao segundo, referindo-se a Auguste Renoir, então com 23 anos de idade: “Esse rapaz não tem o menor talento. Diga a ele para parar de pintar”. Manet negava talento a Renoir, apesar dele próprio, um ano antes, ter sido recusado por um corpo de jurados conservador, que novamente lhe fecharia as portas do Salão de Paris um ano depois. Somente após sua morte, em abril de 1883, em Paris, Edouard Manet teria reconhecido seu valor como artista. Edgar Degas, seu amigo, confessou que desconhecera, até então, a grandiosidade do talento de Manet.

Thomas Gilovich, professor de Psicologia na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, afirma em seu livro How We Know What Isn't So, que mais de 90% dos professores universitários julgam-se melhores do que seus colegas no trabalho. Quanto aos estudantes, 25% acham que estão entre o 1% dos mais qualificados na facilidade de se relacionarem. E se o assunto é capacidade de liderança, 70% se consideram acima da média, contra apenas 2% dos que batem no próprio peito e reconhecem estar abaixo desse índice.

Do campo pessoal para o da Ciência, os 'furos' podem não ser tantos nem tão visíveis, mas a escuridão de nossa ignorância surpreende e inquieta. Há pouco mais de uma década, uma publicação francesa reuniu 16 sábios e lhes pediu que, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, respondessem sobre o que não sabemos. De lá para cá a Ciência avançou, mas está longe de reduzir nossas trevas.

Paleontólogos vêem confusa a origem do homem, e admitem que a árvore genealógica das espécies não para de se ramificar. No campo da Virologia, uma doença complexa como a Aids encontra-se envolta em interrogações. E na Astrofísica? Hubert Reeves, professor no Departamento de Física da Universidade de Montréal, lembra que as simulações matemáticas dos cientistas mostram que, tivesse sido mudada apenas um pouquinho uma das leis que governam o Universo, este permaneceria no caos. E enquanto o próprio Universo mudou consideravelmente, essas leis, porém, não mudaram ao longo do tempo. E pergunta: “De onde vem essa magnífica coerência? Qual é a tábua dessas leis?”

Que dizer então da Antropologia, que pouco sabe sobre o sistema de parentesco adotado pelas sociedades nas diversas partes do mundo? Da Biologia da Reprodução, que desconhece as razões para a divisão do ovo? E da Geofísica e Geodinãmica, que ainda não nos dão respostas que nos possibilitem prever terremotos?

Edouard Zarifian, professor de psiquiatria e psicologia médica, confessou certa vez viver num ambiente onde a maior parte de seus colegas só tem certezas. “Evidentemente, é uma forma de proteção”, continua ele. “Confessar a própria ignorância é considerado um erro profissional – daí a proliferação de um falso saber que tem respostas para tudo, a fim de esconder nossas interrogações”.

Etienne Baulieu, professor francês de medicina, quase repete Zarifian e reconhece que "nossa ignorância se estende a tantos aspectos que não poderia nem numerá-los". E cita apenas três: a reprodução das espécies, o sistema nervoso e o envelhecimento.

No campo da Neurobiologia, muito se ignora sobre a evolução do cérebro. Principalmente se se considerar que a diferença genética entre o chipanzé e o homem é de apenas 1% do conjunto das seqüências do genoma – diferença que, para o professor Jean-Pierre Changeux, “permitiu o aprendizado por epigênese (não genético), a abertura ao meio ambiente, a linguagem, a cultura – em suma, o que encerra a especificidade humana.”

Na História das Religiões, da Arte e da Literatura; na Egiptologia, na Literatura grega e na Lingüística – em tantos outros campos nossa ignorância é tão avassaladora, que seria desanimador tentar dissipá-la, não fossem a curiosidade e, sobretudo, a esperança humanas. Para o astrofísico Hubert Reeves, a grande pergunta é também metafísica: de que serve a longa evolução do Universo, que se estrutura até fazer aparecer essas maravilhas que são os humanos, seres evidentemente incapazes de viver juntos e bem capazes de se auto-aniquilar?

Descrentes – e tantas vezes inchados de pobre sabedoria – escapam-nos palavras como as do salmista: Verdadeiramente, o homem é apenas um sopro.

sábado, 31 de outubro de 2009

Insônia


(Imagem: rosebud)

Adalberto acordou de madrugada com um som monocórdio. Identificou voz de homem, que falava compulsivamente no apartamento de cima. Vez ou outra uma voz feminina tentava contra-argumentar. Nenhuma inflexão emotiva – surpresa, encanto, raiva – nada. Apenas a cantilena insuportável. A seu lado, a mulher dormia sono das costureiras justas.

Na expectativa de voltar a dormir, tentou concentrar a atenção em algo que o fizesse esquecer o barulho. Mas o que vinha à mente eram só preocupações com a política, o trabalho, o condomínio. Sem chance de trégua, o vizinho seguia com a arenga incompreensível. Adalberto então decidiu subir ao apartamento. Pediria aos moradores que falassem mais baixo, fechassem a janela. Tudo feito com recato e educação, conforme seu estilo.

Ao passar diante do espelho, lembrou-se vestido com pijama de estamparia infantil – pequenos helicópteros entremeados pela palavra Vrumm.... Idéia de Elvira, que adquirira peça do tecido numa liquidação. Pé ante pé, voltou ao quarto e vestiu a calça social, estendida sobre a cadeira. Já a troca da camisa significaria, literalmente, arrombar a porta do armário, cuja fechadura enguiçara pouco antes dele se deitar. Sendo excepcional a circunstância e adiantada a hora (já passava de 3h), restava-lhe, como alternativa, vestir o camisão ultracolorido que o cabeleireiro Jojoca, morador no último andar, deixara com sua mulher para reparo.

“Melhor que camisa de pijama com helicóptero” – sussurrou Adalberto para si próprio, enquanto enfiava-se num camisão que cheirava a perfume barato. Além do mais, era madrugada e ninguém, a não ser o vizinho tagarela, saberia daquilo.

Com a mulher ainda em sono quase anestésico, foi ao banheiro onde se penteou, escovou os dentes e decidiu fazer a barba de três dias. Isto lhe renderia uns bons minutos a mais de sono, antes de levantar-se para o trabalho. Acima deles, o falatório prosseguia.

O camisão gritava escândalo. Avaliou-se de alto a baixo, concluindo estar ainda mais irreconhecível com aquele par de chinelos estilo anos 50. Só se considerou trajado para a circunstância após voltar ao quarto e substituí-los pelos mocassins. Então partiu para a ação.

Junto à porta do apartamento do vizinho, apurou os ouvidos. Silêncio absoluto do outro lado. Contou até dez, antes de dar um toque na campainha. Estendeu a contagem até 20, 30... Nada, o apartamento inteiro dormia. Estava com sorte, pensou. Poderia ele também, finalmente, pegar no sono.

Já descia as escadas quando escutou vozes e risos que vinham em sua direção. Era ele, o Jojoca, voltando da balada, acompanhado de voz feminina

Adalberto sentiu enfraquecerem-lhe as pernas. A excessiva sobriedade da engenharia civil não deixara sequer uma quina, uma meia parede, uma coluna – qualquer recurso capaz de ocultar um homem sério, bem intencionado e trabalhador como ele, flagrado naquela situação. Reação instintiva, abriu a camisa sem desabotoá-la. Dois botões saltaram longe, descendo os degraus aos pulos.

Jojoca e sua acompanhante se aproximavam. Num gesto quase ensaiado, embolou o camisão e o enfiou dentro da calça. Ainda afivelava o cinto quando o cabeleireiro surgiu lá embaixo na escada. Amparava a companheira, ambos trôpegos pela bebida.

O casal interrompeu a escalada para dar passagem a um homem seminu e portador de estranha deformidade na região pélvica. O insone Adalberto agradeceu a gentileza e murmurou cumprimento, sem obter resposta.

Em seguida, foi dormir sossegado.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Peregrino


(Imagem: H. Koppdelaney)

Abriu os olhos quando o dia chegava lentamente. Aprendeu a estar no escuro-claro, a driblar a insegurança do desconhecido, a encantar-se com a surpresa. Agarrou mãos, amou olhos, sorriu para sorrisos.

- Chorou, brincou.

O azul da manhã iluminou caminhos e revelou sombras. Havia formas, tamanhos, cores. Gente e rumos. Cão, flores, dores. Mas também havia risos, sonhos, descobertas, diversão.

- Amou.

Ao calor do meio-dia, entregou-se. Esfalfou-se. Mais gente, mais dores, menos risos – sorrisos. Soube da solidão – que enfrentou a dois, a quatro. Ainda havia sonhos, projetos, futuro. Pediu fé.

- Conduziu.

Ocaso de largas sombras e fina névoa em tarde morna. Os olhos procuram, sorriem silêncio no claro-escuro. Corações se vão, surpresas se transformam em solidões e lágrimas.

- Lembrou.

No frio da noite procurou mãos, recordou olhos, desejou sorrisos.

- Cansado e só, dormiu.

sábado, 24 de outubro de 2009

A galinha e os ovos


(Foto: Magic Bubbles)

Há dias recebi e-mail com texto sobre o elogio, no qual se abordava o esfriamento das relações interpessoais – notadamente no ambiente familiar – em razão também da falta de estímulos. Por uma série de razões, a generosidade de um elogio sadio, a quem precisa e merece reconhecimento, tem sido substituída pela indiferença e até por agressões.

Fosse mina d’água, a bajulação nacional, por outro lado, já teria liquidado com a seca do Nordeste. Basta ligar a TV ou folhear revistas, particularmente as de variedades, para que se dê conta da fartura de elogios, sobretudo nos ambientes da política, das artes e da própria mídia. Em nome da popularidade eleitoreira e da audiência, eleva-se ao último reduto da virtude. Ou rebaixa-se, sem misericórdia, à execração em pessoa. Gente normal, com acertos e erros, parece estar em extinção. Ou vai ficando invisível, com o tempo.

Na internet o elogio é vasto. A proverbial fogueira das vaidades arde sem se consumir, como a sarça diante de Moisés. Elogia-se a bobagem, o sexo, a instabilidade, a traição. Não escapam ao incenso a redundância, a transversalidade, a igualdade e a diferença. Sombra, ignorância, fracasso, amor e loucura também são ou foram alvos de elogios, literariamente ou não.

Caçadores e produtores de elogios se profissionalizam. Gente de respeito, competente. Repórter político em Brasília, conheci exemplos em ambas as categorias. Na dos caçadores, havia um sujeito que, não recebendo elogio do interlocutor nos primeiros dez minutos da conversa – na verdade, minuciosa exposição de seus feitos últimos e penúltimos – cobrava com sorriso a apreciação positiva. Permanecendo o estado de estupefação do ouvinte, ele tentava acordá-lo com tapinha no braço. E se nada surtisse efeito, desengasgava o desatento advertindo-o de que ‘elogio é bom, mesmo quando é falso’.

Dolorosa cultura do passado levou gerações a quase medir a freqüência ao uso do elogio pela passagem do cometa Halley: um no começo da vida – quando o elogiado não se dá conta do estímulo que recebeu – e outro no fim. De preferência, post-mortem, que é para não entorpecer o caráter. Já as críticas sobravam – ácidas, pesadas. Elogios, só aos 'outros', mas longe dos olhos e dos ouvidos dos elogiados. Atrás tantas vezes de falso zelo pela integridade moral de quem quer que fosse, escondiam-se as faces deformadas da inveja e do preconceito. O orgulho exacerbado – que se alegava evitar no elogiado – prevalecia no ressentido, levando-o a contorcer-se para não reconhecer o mérito do próximo.

Um empresário mineiro confessava perguntar-se tantas vezes por valores que terá perdido a Ciência, ou por líderes que terão deixado de servir à Nação honradamente porque, jovens, alguém lhes negou, além de oportunidades, o estímulo de um elogio verdadeiro e merecido. O afago de um reconhecimento. Não custa nada, não dói, não deixa capenga e nem mais pobre quem sabe reconhecer, sem exageros, os acertos do outro no momento adequado.

Enquanto escrevo, lembro-me de professora que, submetida recentemente a uma cirurgia, emocionou-se pela mensagem de agradecimento por seu trabalho, feita por uma aluna quando da passagem do Dia dos Professores. Sempre se poderá dizer que isto é comum em alunos interessados em boas notas. Acontece, mas não será a regra. Pelo contrário, o que vai se tornando freqüente é a agressão, a ofensa a quem dedica seu tempo a ensinar e pretende – ou pretendia – tirar daí a sobrevivência. Isto, para não chegarmos ao extremo da violência, cometida pelo estudante que mata o professor.

Convenhamos: um pouco só de humildade cairia bem. Afinal, mirrados pela inveja, não raro ficamos de olho na galinha do vizinho, mas passamos a faca no pescoço da nossa – exatamente a que bota ovos de ouro.