(Imagem: onkel_wart)
“Quando a exposição de Paris fechar, ninguém mais vai ouvir falar em luz elétrica.” (Erasmus Wilson, professor da Universidade de Oxford, 1879)
“Estou apto a suspeitar que todas as espécies humanas são naturalmente inferiores aos brancos.” (David Hume, filósofo empirista, 1766)
“Pelos meus cálculos, o mundo vai acabar em 1950.” (Henry Adams, historiador norte-americano, 1902).
Pobre sabedoria, a nossa!
Numa conversa entre os geniais pintores Edouard Manet e Claude Monet, ocorrida em 1864, o primeiro recomendou ao segundo, referindo-se a Auguste Renoir, então com 23 anos de idade: “Esse rapaz não tem o menor talento. Diga a ele para parar de pintar”. Manet negava talento a Renoir, apesar dele próprio, um ano antes, ter sido recusado por um corpo de jurados conservador, que novamente lhe fecharia as portas do Salão de Paris um ano depois. Somente após sua morte, em abril de 1883, em Paris, Edouard Manet teria reconhecido seu valor como artista. Edgar Degas, seu amigo, confessou que desconhecera, até então, a grandiosidade do talento de Manet.
Thomas Gilovich, professor de Psicologia na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, afirma em seu livro How We Know What Isn't So, que mais de 90% dos professores universitários julgam-se melhores do que seus colegas no trabalho. Quanto aos estudantes, 25% acham que estão entre o 1% dos mais qualificados na facilidade de se relacionarem. E se o assunto é capacidade de liderança, 70% se consideram acima da média, contra apenas 2% dos que batem no próprio peito e reconhecem estar abaixo desse índice.
Do campo pessoal para o da Ciência, os 'furos' podem não ser tantos nem tão visíveis, mas a escuridão de nossa ignorância surpreende e inquieta. Há pouco mais de uma década, uma publicação francesa reuniu 16 sábios e lhes pediu que, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, respondessem sobre o que não sabemos. De lá para cá a Ciência avançou, mas está longe de reduzir nossas trevas.
Paleontólogos vêem confusa a origem do homem, e admitem que a árvore genealógica das espécies não para de se ramificar. No campo da Virologia, uma doença complexa como a Aids encontra-se envolta em interrogações. E na Astrofísica? Hubert Reeves, professor no Departamento de Física da Universidade de Montréal, lembra que as simulações matemáticas dos cientistas mostram que, tivesse sido mudada apenas um pouquinho uma das leis que governam o Universo, este permaneceria no caos. E enquanto o próprio Universo mudou consideravelmente, essas leis, porém, não mudaram ao longo do tempo. E pergunta: “De onde vem essa magnífica coerência? Qual é a tábua dessas leis?”
Que dizer então da Antropologia, que pouco sabe sobre o sistema de parentesco adotado pelas sociedades nas diversas partes do mundo? Da Biologia da Reprodução, que desconhece as razões para a divisão do ovo? E da Geofísica e Geodinãmica, que ainda não nos dão respostas que nos possibilitem prever terremotos?
Edouard Zarifian, professor de psiquiatria e psicologia médica, confessou certa vez viver num ambiente onde a maior parte de seus colegas só tem certezas. “Evidentemente, é uma forma de proteção”, continua ele. “Confessar a própria ignorância é considerado um erro profissional – daí a proliferação de um falso saber que tem respostas para tudo, a fim de esconder nossas interrogações”.
Etienne Baulieu, professor francês de medicina, quase repete Zarifian e reconhece que "nossa ignorância se estende a tantos aspectos que não poderia nem numerá-los". E cita apenas três: a reprodução das espécies, o sistema nervoso e o envelhecimento.
No campo da Neurobiologia, muito se ignora sobre a evolução do cérebro. Principalmente se se considerar que a diferença genética entre o chipanzé e o homem é de apenas 1% do conjunto das seqüências do genoma – diferença que, para o professor Jean-Pierre Changeux, “permitiu o aprendizado por epigênese (não genético), a abertura ao meio ambiente, a linguagem, a cultura – em suma, o que encerra a especificidade humana.”
Na História das Religiões, da Arte e da Literatura; na Egiptologia, na Literatura grega e na Lingüística – em tantos outros campos nossa ignorância é tão avassaladora, que seria desanimador tentar dissipá-la, não fossem a curiosidade e, sobretudo, a esperança humanas. Para o astrofísico Hubert Reeves, a grande pergunta é também metafísica: de que serve a longa evolução do Universo, que se estrutura até fazer aparecer essas maravilhas que são os humanos, seres evidentemente incapazes de viver juntos e bem capazes de se auto-aniquilar?
Descrentes – e tantas vezes inchados de pobre sabedoria – escapam-nos palavras como as do salmista: Verdadeiramente, o homem é apenas um sopro.