(Imagem: Divulgação)
O
palhaço vagabundo conhece a bailarina. Sonho e lembrança, então cutucados pela
melodia da caixinha de música que o palhaço traz na mala, dominam o personagem,
que vê passar o trem na estação. O cenário, aliás, se presta como poucos à
mistura de saudade, paixão e sonhos com a nostalgia que os trens costumam despertar.
O
tema não é novo. O confronto entre realidade e sonho instiga a criatividade
desde sempre. É fácil rir e sonhar, quando a corda sensível da imaginação é
tocada de maneira simples, com sutileza e técnica. Com maestria. Ainda que o
riso tenha berço em fraquezas inerentes à condição humana.
Fraqueza
nada, condição só. Mas essa resistência em admitir o que nos pareça mais conveniente
manter oculto é que, ao final, pode acabar dando em arte. Principalmente se a
tudo se adicionar porção adequada de ingenuidade pura, irretocada, da criança
que, ainda em traços e mesmo sem o saber, todos trazemos num canto qualquer de nós
mesmos.
E
é ela – essa criança – que cria e se deliciará com o encantamento de figuras como
as de um palhaço-realidade e uma bailarina-sonho. Porque o ato simples de
sonhar “o sonho” só será possível se o sonhador tiver sabedoria e coragem de encarar-se,
rindo e fazendo rir de suas fraquezas. Melhor: de sua condição. De nossa humana
condição.
A
peça O Palhaço e a Bailarina - Dois
mundos, uma história de amor, que o ator e diretor Fabrício Sereno e a
bailarina clássica Melissa Travagini estrearam em Juiz de Fora, Minas,
dificilmente será vista nos grandes centros – o que é uma pena. Mesmo não se
tratando de rica produção, apresenta caprichosíssimos figurinos elaborados por
Olga Travagini, mãe da bailarina, assim como elementos de cena, iluminação e trilha
sonora que se ajustam à proposta. A peça já caiu no agrado dos primeiros e privilegiados
espectadores que puderam assisti-la em pré-estréia.
Um
grito da bailarina é tudo o que, de voz humana, se ouvirá durante o espetáculo.
De resto, a leveza, a graça, a emoção, e até a clássica luta entre palhaços calçando
grandes luvas de boxe – tudo se passa numa atmosfera que, sem nenhum esforço ou
complacência, envolve integralmente uma platéia silenciosa e encantada.
O Palhaço e a Bailarina
– Dois mundos, uma história de amor não é
só mais uma peça teatral: ela vai além também ao desviar o espectador de temas relacionados a conflitos, polêmicas
e tantas amarras a que somos atados em rotina de desentendimentos, violência,
enganos e desenganos, com muita freqüência levados aos palcos ou
incansavelmente explorados pela mídia.
Apoiados
por elenco de bailarinas e atores dedicados ao melhor resultado do espetáculo (que
tem o amparo de uma lei municipal de incentivo à Cultura), Fabrício Sereno e
Melissa Travagini despontam em Juiz de Fora com um teatro inteligente, limpo e
de estética agradável – resultado de esforço pessoal sem limites e amor pelo
que fazem.
Alguém
escreveu certa vez, referindo-se aos espetáculos circenses, que o show deve
continuar ainda que o palhaço chore e a bailarina erre o passo. Aqui, no
entanto, em lugar do choro do palhaço ou do passo errado da bailarina, o que se
verá é um tocante show de Fabrício Sereno e Melissa Travagini.
Que, é bom lembrar, está apenas começando.






